"É IMPORTANTE SABER calar. No jornalismo então, o passar dos anos ensina que essa disciplina é ouro. Primeiro, no início da carreira, é importante saber calar para poder ouvir o máximo possível. O melhor repórter é aquele que mais ouve. Não tente, caso esteja na carreira, mostrar que sabe de algo despejando perguntas imensas a entrevistados. Ao invés de ser reconhecido como bom jornalista só vai lhe cair a fama de bocó e de amostrado.
Depois, mais ainda, é importante saber calar para aprender a observar o fato, colher as impressões dos outros e ir além: provocar a curiosidade dos concorrentes. O repórter calado (eu disse CALADO) é um perigo, acredite. Enquanto os outros estão conversando sobre detalhes desinteressantes da história ou fofocando, é o caladinho (eu disse CALADINHO) que está formulando três ou quatro maneiras de pôr todo mundo no bolso, seja pela cobertura ou pelo texto.
Depois, no dia seguinte, permanece sendo importante manter- se mais calado do que sempre. Para ouvir tudo o que vai ser dito sobre seu trabalho sem trepidações, inclusive os ataques daqueles que foram atacados e que vão tentar a qualquer custo provocar alguma instabilidade no seu trabalho.
Com o passar do tempo você acostuma. Não só você que vai ser jornalista como o leitor de jornal mais experimentado, como o é o nosso Geraldo Batista. E acaba percebendo que ao contrário do que se pode pensar, o silêncio é o grande manual de jornalismo (por excelência). É por meio do silêncio que o jornalismo mais se explica. E que o silenciar é uma disciplina que serve não somente aos repórteres.
Os veículos também tem seu próprio método de usar o silêncio. E todo veículo de comunicação tem o seu território mudo. Em alguns, essa zona de volume zero é uma pessoa. Em outros, um assunto. E em outros mais, empresas anunciantes. Há ainda as situações. E há os que silenciam diante de todos esses casos. Sendo assim, o limite de todo jornalismo é o silêncio. Não o silêncio que se faz quando não se consegue apurar um fato. Mas o silêncio que reina quando algum motivo obscuro, que não pode ser revelado aos leitores, impede que o veículo fale sobre determinado assunto.
E tal silêncio soa cada vez mais alto quando pistas daquilo que não se pode dizer aparecem por acidente nas reportagens. Alguém vai e dá uma declaração que não se pode esconder. Algum outro faz uma insinuação. Um terceiro cita um nome que não era citado. Um quarto, desgostoso com a situação, em meios aos embalos de sábado à noite, dispara umas verdades que não deveriam aparecer.
Tais detalhes vão aparecendo e ninguém vai atrás desses indícios. Uns porque não podem. Uns porque não devem. Uns porque não querem. Uns porque não conseguem. E há ainda os que concordam mesmo. Há sempre um motivo (ou não). A situação piora ainda mais quando os envolvidos no caso também fingem que nada está ocorrendo e aceitam o prejuízo de terem seus nomes citados em fato desgastante contanto que tudo não passe dali. Ou então preferem mesmo se comportar como antigamente, quando a família recebia um filho reprovado (uma vergonha, meu Deus), mas ninguém tocava no assunto, mesmo que todo mundo soubesse na cidade o que realmente tinha ocorrido.
É importante observar e ressaltar que após o silêncio – essa fronteira – aí sim, na maioria das vezes, começa o verdadeiro jornalismo. Tudo o que um ou mais jornais tratam de calar é a mais pura notícia. E se calam é para comprovar que o jornalismo, o verdadeiro jornalismo mesmo é muito diferente do jornalismo do mundo real, aquele que se quer uma empresa lucrativa.
Um grande sonho de todo jornalista seria publicar um jornal todo feito desses silêncios. Um jornal com tudo que faz os outros veículos calarem. O que seria um tremendo grito, percebe? Um jornal que tratasse de identificar o porquê de determinado veículo não ter ido atrás de entrevistar determinada pessoa que é citada em alguma notícia. Ou porque determinado assunto deixou de ser noticiado.
Aqui no Rio Grande do Norte então, seria uma enorme zoada, mas certamente não duraria muito esse jornal. Não por falta de material, posto que teria tudo o que não se pode dizer. Não daria certo por outros motivos, os financeiros. De qualquer forma, o barulho provocado por um veículo assim “silencioso”, certamente duraria diversas gerações. Uma edição que fosse. Hoje talvez. É preciso dizer mais?
Sim. É preciso anotar que passados 11 dias após o grande acontecimento, as primeiras fl ores começarão a ser depositadas no local. Por iniciativa de cidadãos anônimos que chorarão a grande perda. Na sequência dos eventos, as velas e os cartazes de lamentação virão logo em seguida. Não demorará para que em torno de todo o coliseu sejam depositados oferendas tentando aplacar o prejuízo enorme que todo o Estado sofreu por ter apostado tantos recursos em algo que, 11 dias depois, se revelará o que sempre foi: pirita, ouro de tolo. É como disse hoje (ontem) no tuitter, o jornalista repórter Jorge Bastos Moreno: “Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá-la”"
Everton Dantas - Novo Jornal, 25 de outubro de 2011.
